domingo, 5 de agosto de 2007
Caso escravo
o de ajudar
para dominar
a quem se doma
com a viúva
vulva
Rijo açoite
o de comprar
para abusar
de quem se cala
com a vara
tara
Forçoso conluio
o de entregar
a ‘justa’ arma
e legitimá-la
com a honra
rala
Medalhão
principesca medida,
principia ao meio dia
matura à meia noite
A moderada medalha
alicia seus súditos
superficia os pontos
suplanta os prantos
A manhosa medalha
ofuscante sedução
prossegue impondo
controversa condição
A renúncia do próprio,
a mental inópia,
a melíflua retórica,
a glória, a glória, a glória
Secreta mente
a história singular
do homem
que amava lágrimas.
Trocadas as teclas,
na clave do sensível,
a in-sólida-riedade.
Em homem chumbo
Robusto é o desdém
Maciço o sorver.
Ele, estanhamente,
disseca a anatomia
de seres irracionais
Tendo atado
um rato pelo rabo,
arranca rasgos, guinchos,
do suplício da lâmina.
Dissonante sabor,
delícia íntima,
vasto prazer
estético?
Calígulamente
volta-se ávido
aos racionais seres
Estaca diante, distante,
do choro guinchante
de mudo amor,
que morre.
Profunda dor
de alheio
afeto.
Secreta mente
surpreendido
ante óbito-leito,
o homem chumbo
fundo se deleita.
Rosarruda
Cartomorte
Zombei
da aparição
de mãos e cartas
2º ATO:
Colhi sem pudor
o fruto proibido
3º ATO:
Fui ameaçado,
caguei de medo.
Hamlet de quinta,
apelei para o invisível
guia.
4º ATO:
Italianinha surrada
de dentes sãos
a morder passas
me ofereceu a paz
num ás de espadas.
5º ATO:
O príncipe
na Dinamarca,
atordoado, sem consolo,
ante lodo torpe,
sofria, se embatia,
por ver o embaçado
com lucidez atroz.
Eu aqui
embalado
em rósea nuvem
não vi
que a maneira
mais barata
e menos chata
de cuidar da vaidade
e livrar-se
de uma esposa
tonta e incômoda,
é matando-a afinal,
junto ao seu rival.
O pano caiu.
Jura ao mar
dura tempo vago
toda uma vida
ou breve acolhida?
A jura é palavra
que lavra ou que engana,
lacrada ou volátil,
Penélope ou Molly?
Desafio ao destino,
laçada no pulso da sina,
ou lança de convulso instante
no centro intenso do prisma?
A jura de amar
vaga levada pela onda
em mar de proa
ou de popa
mar de prosa
ou de rosas.
Aquela jura lua
cresceu cheia
na água
minguou nova
na terra
Veio da costa
e deu de costas
pro insólido mar,
de ingênuo marujo.
Jura?
Romper da Missa
de lar patriarca,
há uma brecha
onde passa
a úmida brisa.
No submisso
subterrâneo
se inicia sensual missa,
eclode eros, que nada
nas passagens ínfimas,
atiçando o descerrar
de comportadas
comportas.
Matura anima derrama
malícia contida
sobre púbere imperícia.
Ziguezagueando
animus botão,
ela roça leve e desperta
o pólen.
Essa volúpia subcutânea,
esse ensaio de súplica,
trava
ao vislumbre de tanatos,
que ali flerta.
Fecha-se a arca,
tapa-se a brecha.
Assim Assis?
de misérias
o bruxo criou
lítera poção.
Prová-la
é rito
de passagem
Aspecto
límpido e fino
impressiona.
Teor
tosco e turvo
incomoda.
Substância que
esbanja
multileitura,
assola
visão alva,
enigma
os presentes,
divide a sala.
Está ali
séria sátira
falso fato
trivial trágico
que
apaticompassível
en (des) cobre
para (mobi) liza e
des culpa
o
r expirar
in humano
sexta-feira, 3 de agosto de 2007
William Carlos Williams
Oh strong-ridged and deeply hollowed
.
.
haikais primeiros

em barraco de migalhas
buraco de almas
Barco ao fundo preso,
dissipando lenha e sonho,
gira, gira, a esmo.
Atéia
A tecida teia
da trama que o tempo abarca
alheia mão despenteia
Teus dedos em festa
Passeando na promessa
Prendem-me na fresta
Emily Dickinson

Beauty -- be not caused -- It Is -
Deity will see to it
That You never do it --
Graça -- não forçada -- fica --
Se caçá-la, cessa --
Se não caçá-la, ela habita --
Ignora as dobras
Nos prados – quando o dedos
do vento ali se espalham--
É só Deus quem olha
Não nos cabe imitá-lo
A sepal, petal, and a thorn
Upon a common summer's morn-
Emily Dickinson
A sépala, a pétala e o espinho
num verão simples, bem cedinho --
vidro de orvalho – bis abelhas --
mole aragem – ipê molecagem --
e eu saio rosa!
I cannot live with you
It would be life
And life is over there
Behind the shelf
The sexton keeps the key to,
Putting up
Our life, his porcelain,
Like a cup
Discarded of the housewife,
Quaint or broken;
A newer Severs pleases,
Old ones crack.
I could not die with you,
For one must wait
To shut the other’s gaze down,
You could not.
And I, could I stand by
And see you freeze,
Without my right of frost,
Death’s privilege?
Nor could I rise with you,
Because your face
Would put out Jesus’,
That new grace
Glow plain and foreign
On my homesick eye,
Except that you, than he
Shone closer by.
They’d judge us – how?
For you served Heaven, you know,
Or sought to;
I could not,
Because you saturated sight,
And I had no more eyes
For sordid excellence
As Paradise.
And were you lost, I would be,
Though my name
Rang loudest
On the heavenly fame.
And were you saved
And I condemned to be
Where you were not,
That self were hell to me.
So we must keep apart,
You there, I here,
With just the door ajar
That oceans are,
And prayer,
And that pale sustenance,
Despair
Emily Dickinson
NÃO POSSO VIVER COM VOCÊ
Não posso viver com você
Isso seria vida
E a vida fica bem ali
Por trás da estante.
O sacristão segura a chave,
Suspensa fica
Nossa vida, sua louça,
Feito uma xícara
Liberta da dona de casa,
Estranha ou quebrada;
A louça mais nova é que agrada,
As antigas partem.
Não poderia morrer com você,
Pois um deve esperar
Pra enfim fechar o olhar do outro,
Você não poderia.
E eu? Poderia parar
E vê-lo um corpo frio,
Sem meu direito de frio,
Privilégio da morte?
Nem poderia acordar com você,
Porque sua face
Desalojaria Jesus,
Essa nova graça
Aquece estrangeiro
Meu olho exilado,
Mas você, mais do que ele
Brilhou ao meu lado.
Eles nos julgariam – Como?
Pois você serviu o céu, é certo
Ou assim tentou,
Eu não poderia,
Pois você saturou a vista,
E eu sem mais visão
Para sórdida perfeição
Como o Paraíso.
Se acaso você se perdesse,
Me perderia também
Mesmo que eu fosse
Famosa como ninguém
E se você se salvasse,
E eu fosse condenada
A ficar sem você,
Seria o inferno, mais nada
Fiquemos pois, apartados,
Você lá, eu cá,
Com semicerrada porta
Que são os oceanos
E a oração
E aquele pálido alimento
Desilusão!
Cecilia Furquim - Maio de 2006



